Friday, November 21, 2008

Despedida

“Se por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapos e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso mas pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam.

Dormiria pouco, sonharia mais, porque entendo que por cada minuto que fechamos os olhos perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os outros param, acordaria quando os outros dormem. Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria um bom gelado de chocolate !

Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.

Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperava que nascesse o sol. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas de um poema de Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que eu ofereceria à Lua!
Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas...

Meu Deus, se eu tivesse um pouco de vida... não deixaria passar um só instante sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.

Aos homens provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar!
A uma criança, dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha. Aos velhos ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas foram as coisas que aprendi com vocês, os homens ! Aprendi que todo o mundo quer viver em cima da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está em subir a encosta...
Aprendi que, quando um recém-nascido aperta, com a sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.
Aprendi que um homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se...

São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me irão servir realmente de muito, porque, quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.

Supondo que hoje seria a última vez que te vou ver dormir, abraçar-te-ia fortementee rezaria ao Senhor para que fosse o guardião da tua Alma.
Supondo que estes são os últimos minutos que te vejo, dir-te-ia "Amo-te" e não assumiria, loucamente, que já o sabes.

O amanhã não está assegurado a ninguém, jovens ou velhos. Hoje pode ser a ultima vez que ves aqueles que amas. Por isso, não esperes mais, fá-lo hoje, porque o amanha pode nunca chegar. Senão, lamentarás o dia em que não tiveste tempo para um sorriso, um abraço, um beijo e o teres estado demasiado ocupado para atenderes a esse ultimo desejo.

Mantém os que amas perto de ti, diz-lhes ao ouvido o quanto precisas deles, aproveita para lhes dizer "perdoa-me", "por favor", "obrigado" e todas as palavras de amor.

Não serás recordado pelos teus pensamentos secretos. Pede ao Senhor a força e a sabedoria para os saberes expressar."

Gabriel Garcia Marquez







Monday, November 17, 2008

Entre os teus lábios

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.

Eugenio de Andrade

Friday, November 14, 2008

Incondicionalmente

Podia sair à rua de pijama, de cuecas ou com a roupa do avesso, tu estarias lá para mim.
Podiam dizer-te que sou a pior pessoa à face da terra, não acreditarias, assim como não acreditas quando tento fazer-te crer que "lhe" liguei, porque conheces a minha essência! Não que ela me console, mas consola-me que me aceites como sou.
Podia ter uma coroa e vestes púrpura e carmesim ou então ser uma pobre moribunda de pés negros e roupas em frangalhos, tu estarias lá para mim.
Podia adoecer, enlouquecer, tornar-me hippie, nudista, emigrar para os Polos ou refugiar-me no Tibete, tu estarias comigo.
No extase e na fossa tu estás a meu lado (e a teu lado da fossa ao extase é um pequeno passo!).
Obrigada por cuidares de mim com esse enorme desvelo, por compreenderes o meu jeito inseguro, por afastares todo o baixo astral (no lugar de palavras desagradaveis...). Obrigada por não me abandonares quando me torno na pior das pessoas, por não levares a peito os disparates que digo tantas vezes!
Obrigada por tentares fazer-me ver o que valho.
Obrigada por não desistires de mim.