"Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos;acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhámos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes parámos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhámos o céu e interrogámos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
MST in "Não te deixarei morrer David Crockett"
Tuesday, October 24, 2006
Friday, October 13, 2006
Do outro lado do espelho
São caminhos, encruzilhadas, bons fados, maus destinos. São vidas. É colar de cacos, quebrar de expectativas. É esperança que a redoma me proteja da hipocrisia, desespero quando se parte e me deixa para lá do suportável. Perco-me e encontro-me nesta constante mentira sem nunca oscilar aos olhos de quem passa e me vê todo o dia em alegria. Soa a fácil, mera representação: cheira a dor. Dói o ar que se respira, o conter de lágrimas, a apatia....Dói este desconcerto de vida.
Hoje não estás mais aqui, por incrível que pareça custa bem mais do que julgava não acordarmos todos os dias sobre o mesmo tecto, não poder entreabrir a porta do teu quarto só para te sorrir, não poder discutir ctg, não poder partilhar daqueles momentos do dia-a-dia que só quem tem o que outrora tivemos partilha. Nunca ponderei bem a discrepância entre o perceptível e o que está para lá da barreira do visível, nem nunca me pareceu a tua ausência tão sofrível. É um corroer impiedoso este do desfazer de laços. Aprendi a suportar este dessangre e a disfarçá-lo, mas não sei como pará-lo. Fazes-me falta.
Dói não ter um esconderijo forte, uma casca dura, aquela protecção, a coesão. Entranham-se estes viveres viciados, consomem-me estas ausências e farsas, e a cada dia se torna mais árduo viver. Seguro a cabeça, disperso-me em tentativas de reconstruir o meu eixo, esboço um sorriso...sinto-me vazia...
Hoje não estás mais aqui, por incrível que pareça custa bem mais do que julgava não acordarmos todos os dias sobre o mesmo tecto, não poder entreabrir a porta do teu quarto só para te sorrir, não poder discutir ctg, não poder partilhar daqueles momentos do dia-a-dia que só quem tem o que outrora tivemos partilha. Nunca ponderei bem a discrepância entre o perceptível e o que está para lá da barreira do visível, nem nunca me pareceu a tua ausência tão sofrível. É um corroer impiedoso este do desfazer de laços. Aprendi a suportar este dessangre e a disfarçá-lo, mas não sei como pará-lo. Fazes-me falta.
Dói não ter um esconderijo forte, uma casca dura, aquela protecção, a coesão. Entranham-se estes viveres viciados, consomem-me estas ausências e farsas, e a cada dia se torna mais árduo viver. Seguro a cabeça, disperso-me em tentativas de reconstruir o meu eixo, esboço um sorriso...sinto-me vazia...
Tuesday, October 10, 2006
O que resta
Silêncio que mata e que dói, este de te guardar em mim, de te encafuar nas memórias que outrora foram doces com aroma a jasmim.
Silêncio que mói, este de te manter na penumbra, esconder-te do dia e amordaçar-te num segredo. Mas da eterna dúvida de te definir como um cacto ou como um templo grego, resta-me a sombra.
Silêncio que corrói, que me deixa zonza.
Silêncio de ti.
Vem, diz-me que te honrarás.
Revela-te e eu revelar-me-ei,
ou para sempre no silêncio ficarás.
Silêncio que mói, este de te manter na penumbra, esconder-te do dia e amordaçar-te num segredo. Mas da eterna dúvida de te definir como um cacto ou como um templo grego, resta-me a sombra.
Silêncio que corrói, que me deixa zonza.
Silêncio de ti.
Vem, diz-me que te honrarás.
Revela-te e eu revelar-me-ei,
ou para sempre no silêncio ficarás.
Monday, October 09, 2006
Do lado do Silêncio
Gosto de espreitar o teu sono de criança, à noite, quando dormes alheia a tudo, e eu fico a ouvir a tua respiração e a alisar os teus cabelos.Às vezes, chego a pensar que é um desperdício ir dormir, em lugar de ficar ver-te dormir, porque o tempo voa e em breve já não serás criança. Nestas noites, como diz a lei, tenho-te à minha «guarda», o que é um prazer insubstituível e a que alguns chamam direitos e outros deveres.
Gosto de acordar de manhã, quando, ainda antes do despertador tocar, oiço o som do canal Panda na sala, e fico a saber que tu já acordaste e que sengues à risca o ritual estabelecido, e que a seguir irás fazer o teu pequeno-almoço e vestires-te para a escola. Mas, apesar disso, gosto de te recomendar que faças tudo isso e não te esqueças de lavar os dentes, sabendo que não te esqueces mas também gostas de ouvir-me dizer-to, porque essa é uma forma de saberes que te «guardo».
Saímos de casa deixando para trás o desalinho do teu quarto, a desarrumação vivida das tuas coisas, esses sinais indesmentíveis da tua presença, sem os quais a casa não faz sentido e o silêncio pesa como dor escondida. És sempre tu quem carrega no botão do elevador, quem acende as luzes da garagem, numa atenção emergente para a rotina das coisas, que é a forma como vais entrando na manhã. E segues um silêncio atento no banco de trás do carro, que interrompes às vezes com alguma pergunta que te ocorre de repente. Vais chegada para a frente, uma mão pousada nas costas do meu banco, como se quisesses prolongar os últimos instantes de proximidade física. (...)
Porque há sempre uma porta que se fecha e que nos separa, ao contrário da casa, onde a porta do teu quarto e a do meu estão sempre abertas.
(A ti...)
Miguel Sousa Tavares
Gosto de acordar de manhã, quando, ainda antes do despertador tocar, oiço o som do canal Panda na sala, e fico a saber que tu já acordaste e que sengues à risca o ritual estabelecido, e que a seguir irás fazer o teu pequeno-almoço e vestires-te para a escola. Mas, apesar disso, gosto de te recomendar que faças tudo isso e não te esqueças de lavar os dentes, sabendo que não te esqueces mas também gostas de ouvir-me dizer-to, porque essa é uma forma de saberes que te «guardo».
Saímos de casa deixando para trás o desalinho do teu quarto, a desarrumação vivida das tuas coisas, esses sinais indesmentíveis da tua presença, sem os quais a casa não faz sentido e o silêncio pesa como dor escondida. És sempre tu quem carrega no botão do elevador, quem acende as luzes da garagem, numa atenção emergente para a rotina das coisas, que é a forma como vais entrando na manhã. E segues um silêncio atento no banco de trás do carro, que interrompes às vezes com alguma pergunta que te ocorre de repente. Vais chegada para a frente, uma mão pousada nas costas do meu banco, como se quisesses prolongar os últimos instantes de proximidade física. (...)
Porque há sempre uma porta que se fecha e que nos separa, ao contrário da casa, onde a porta do teu quarto e a do meu estão sempre abertas.
(A ti...)
Miguel Sousa Tavares
Sunday, October 08, 2006
Um pouco de ti.
......Não sei o que sinto quando te vejo.......
.......se afeição se desejo....
...Sei que prescruto o mais ínfimo gesto....
........no encalço de uma desculpa.....
....talvez por compaixão ou por bondade....
......Sei que insisto em apagar-te a culpa, e, acredita....
.... não em jeito de perdão....
...Mas de todas as vezes, sem excepção, resta-me a perplexidade...
....Perturba-me o teu contrapasso....
....contundes, trituras e seduzes num único passo....
....És calor, quimera, desilusão...
.....és desagradável como o vento que te desgrenha os cabelos...
.......... apaixonante como uma noite quente de Verão...............
.......num só acto és fantasia e decepção........
....Incomodas-me com o teu jeito frio.....
.......Conquistas-me com esse teu desalinho.....
....És um misto de malícia e fraqueza...
....provocas apreço por essa pobreza...
.........Queria consolar-te, dar-te um ombro amigo.......
............ensinar-te a nobreza de um gesto.........
.................é inquietante como nem para isso te remetes à tua insignificância.............
......é nula em ti a profundidade do que quer que seja........
.....és indigesto, tal é essa petulância.......
......Não sei o que sinto quando me beijas.......
........quando te ris, quando me deixas.......
.....quando me trespassas com um olhar......
........quando sem dó me levas ao transtorno do não pensar....
.....Sei o que sou e o que espero, sei o que és e não te quero....
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Sunday, October 01, 2006
Dança como se ninguém estivesse a ver-te
Não pares. Não pares de tentar, segue a tua luta, prossegue mesmo quando tropeças. Segue. Não pares de te iludir e desiludir, não pares de crer. Dá o tudo por tudo, mas não fiques a meio, parar é desistir, desistir de ti própria. Dá tudo, dá-te, entrega-te sem medos, tu sabes que tens força para te erguer. Continua a andar, a correr, a tropeçar e a cair, aprende a levantar-te. Não desistas de sentir o toque de uma brisa, de uma gargalhada solta ou de um abraço,não desistas de acreditar na felicidade nua. Não desistas de ouvir música, a tua música, de rir, de dançar. E dança. Dança e vive numa dança enlouquecedora, só tua. Não pares de errar e remendar, não pares de questionar, não deixes de sorrir, de pedir ajuda e ajudar, não pares de te construir. Continua a acreditar que a vida é feita destas interrupções, mas que a cada momento terás a chave para a reconstrução. Continua sempre. Não te substimes, vai mais longe. Mais longe do que julgavas ser capaz.
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