Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Monday, September 28, 2009
Wednesday, September 23, 2009
Conselho
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
Fernando Pessoa
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
Fernando Pessoa
Tuesday, September 22, 2009
Caminho a teu lado mudo
Caminho a teu lado mudo
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas: Sim... Não ... Não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é...
E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
Fernando Pessoa
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas: Sim... Não ... Não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é...
E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
Fernando Pessoa
Sunday, September 20, 2009
Adeus
Foi hoje.
Chegou o dia em que me enganei sobre a essência de alguém. Devia ter ouvido o meu mau presságio (logo de início!), mas antes ouvi-te a ti a as tuas dissimulações.
Não, pára, não vale mais a pena pedir perdão. Quem pede desculpa é porque reconhece o seu erro, e, assim, não o repete seguida e incessantemente. Basta! Deixa-me desfazer estas ilusões criadas sem sustento, provindas desses teus tentáculos ocultos e obscuros. Deixa-me neste meu mundo criado numa redoma. Essa redoma que me isola de seres como tu. Essa redoma que me protege da vida ingrata.
Porque entraste nela? Porque a partiste?
Pára. Deixa que eu acredite neste meu jardim cuidado e perfumado, sem vermes.
Chega, não quero mais seres encobertos. Deixa o sol raiar! Não te quero mais.
Os meus parabéns por seres o único a conseguires-me sucumbir aos teus disfarces. Mas hoje, hoje não vou martirizar-me mais. Sou o que sou e orgulho-me de me ter construido assim, sem falsidades nem artifícios. Orgulho-me de me poder chamar HUMANA!
Um dia desculpar-te-ei por esse mal que fizeste malograr em mim. Mas hoje, hoje pára de me atormentar. Não quero mais padecer de ti.
Chegou o dia em que me enganei sobre a essência de alguém. Devia ter ouvido o meu mau presságio (logo de início!), mas antes ouvi-te a ti a as tuas dissimulações.
Não, pára, não vale mais a pena pedir perdão. Quem pede desculpa é porque reconhece o seu erro, e, assim, não o repete seguida e incessantemente. Basta! Deixa-me desfazer estas ilusões criadas sem sustento, provindas desses teus tentáculos ocultos e obscuros. Deixa-me neste meu mundo criado numa redoma. Essa redoma que me isola de seres como tu. Essa redoma que me protege da vida ingrata.
Porque entraste nela? Porque a partiste?
Pára. Deixa que eu acredite neste meu jardim cuidado e perfumado, sem vermes.
Chega, não quero mais seres encobertos. Deixa o sol raiar! Não te quero mais.
Os meus parabéns por seres o único a conseguires-me sucumbir aos teus disfarces. Mas hoje, hoje não vou martirizar-me mais. Sou o que sou e orgulho-me de me ter construido assim, sem falsidades nem artifícios. Orgulho-me de me poder chamar HUMANA!
Um dia desculpar-te-ei por esse mal que fizeste malograr em mim. Mas hoje, hoje pára de me atormentar. Não quero mais padecer de ti.
Wednesday, September 16, 2009
Frieza
Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lãminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Florbela Espanca
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lãminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Florbela Espanca
Não quero continuar
Não quero continuar.
Vasculho no mais íntimo que consigo, tropeço em ideias, perco-me nestas entranhas.
Não quero continuar.
Levanto-me e tento travar esta escuridão densa. Procuro ouvir-te, ao longe, que tudo um dia correrá bem. Procuro ouvir-te com incessante afinco. Tudo o que vejo é lúgubre como aquele que veio e que foi, sem olhar para trás.
Dias tristes, noites soturnas. Anseio por um rasgo de luz.
Não quero continuar.
Vasculho no mais íntimo que consigo, tropeço em ideias, perco-me nestas entranhas.
Não quero continuar.
Levanto-me e tento travar esta escuridão densa. Procuro ouvir-te, ao longe, que tudo um dia correrá bem. Procuro ouvir-te com incessante afinco. Tudo o que vejo é lúgubre como aquele que veio e que foi, sem olhar para trás.
Dias tristes, noites soturnas. Anseio por um rasgo de luz.
Não quero continuar.
Saturday, September 12, 2009
Solidão
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
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