"Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim proprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério e tudo é prenhe de significado. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendencias naturais, pelas circunstancias que rodearam o alvor da minha vida, pela influencia dos estudos feitos sob o seu impulso ( estas mesmas tendencias) - por tudo isto o meu carácter é do genero interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente, mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida de autodominio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus ecsritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinarios, inexpulsaveis associações de ideias cujo termo era o infinito.
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for, uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância, mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compôr música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
(...)
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro qua haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."
Fernando Pessoa
Monday, May 25, 2009
Thursday, May 21, 2009
Nesse balanço
Muitas vezes digo-te que não só para te provocar. Finjo-me de desinteressada, de desligada. Aperceber-te-ás que esta falta de paixão por ti é teatro? Eu consigo perceber que sou um desassossego para o teu ânimo, mas sei também que não moverás o que quer que seja, tal e qual como eu não me revelo. Talvez seja isto que dá graça ao balanço da paixão e talvez seja isto que nos torna invulgares aos olhos um do outro. Gostava de conseguir ler-te nessas entrelinhas armadilhadas e temerosas. Decifrar-te como um enigma duvidoso. Não sei que personagem te veste melhor, se o descarado insolente, se o bonitinho inseguro. Julgo-te um misto, talvez me iluda, se te analisar à minha imagem é só falta de coragem. É esta falta de firmeza de atitude que me faz perder-te para quem é arrojado! Mantenho a fé que um dia vou provar-te.
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