Abri a janela para um vale verdejante, no esplendor da sua juventude, era Primavera! Lá em baixo, bem lá no fundo, o Douro cortejava esses vales onde vinhas bem tratadas cresciam.
No meu palacete, em mármore e pedra mal cortada, típica do local,um amplo adro preenchia toda a casa onde apenas o piano suficientemente o decorava, e, diga-se, majestosamente. Por entre as cortinas adivinhava-se o rasgo de Sol que nos enchia a alma. Dali crescia uma escadaria central que se ramificava em duas direcções.
A avó Francisca fazia com que um cheirinho matinal a café maternalmente nos acolhesse a todos. A avó Marquinhas e a avó São costuravam, na berma da escadaria no alpendre de fora, com vista sobre o vale do Douro, onde viam todos passar, como tanto gostavam. Ali estava a sua felicidade. O avô João e o avô Herculano trabalhavam nas vinhas, como típico, e como era o típico que lhes trazia a felicidade. As crianças jogavam a bola, felizes, depois das aulas, chegadas do seu autocarro escolar.
A felicidade,em pequenas coisas, onde todos a encontravam.
A felicidade das imagens onde nunca mais A encontrei.
Thursday, February 25, 2010
Sunday, February 07, 2010
Para não esquecer
Brave Heart, Colisão, Casa na Bruma, Fiel Jardineiro, Hotel Rwuanda, Lost in Translation, Lista de Schindler, Munique, O pianista, A Vida é bela, Goodbye Lenin, Dirty Dancing, Música no Coração, Chocolate, Scoop, Vicky Cristina Barcelona, Match Point, Les misérables, Paris, Estranhos de Passagem, Va vis et deviens, Paris je t'aime, Jeux d'enfants, L'auberge espagnole, Bonecas Russas, Volver, Sin Noticias de Dios, Los Abrazos Rotos, Cinema Paradisio, 21Gramas, Blow, Charlie e a Fábrica de Chocolate, Como água para Chocolate, High Fidelity, Tristão e Isolda, Goya's Ghosts, Pride and Prejudice, Ana e o Rei, Gladiador, The other Boleyn Girl, A rapariga do brinco de pérola, Love in the Time of Cholera, The Painted Veil, Memórias de uma Gueixa, O último Samurai, África Minha, The Duchess, Corações na Atlântida, Finding Neverland, Babel, New York I Love you, The namesake, Blindness, The sixth sense, Sleepy Hollow, Mulholland drive, A Porta do Chao, Donnie Darko, The Darjeeling Limited, Eternal sunshine of the spotless mind, Inglorious Basterds, Into the wild, Diários de Che Guevara, Aconteceu na Argentina, Meu nome não é Johnny, Cidade de Deus, Tropa de Elite, Carandiru, Save the Last Dance, Coyote Bar, Lagoa Azul, 10 Things I Hate About You, A Praia, Mamma Mia, Slum Dog Millionaire, Love Actually, What Happen in Vegas, Terminal de Aeroporto, Notting Hill, Run away bride, Como perder um homem em 10dias, A ilha, Ladder49, 15 Minutos, The Others, Conde Monte Cristo, Mente Brilhante, Proof, Catch me if you can, Gran Torino, Entrevista com o Vampiro, Advogado do Diabo, Homicidio Perfeito, Break's Point, Thomas Crown Affair, Virgens Suicidas, Before Sunrise, Pretty Woman, Sweet November, Shinning, Melhor é Impossivel, A Torre do Inferno, Pulp Fiction, Forest Gump, Romeu e Julieta, Titanic, ET, Pequena Endiabrada, Home Alone, Clube dos Poetas Mortos.
Friday, February 05, 2010
Nasci para o Amor
Não vale a pena esse disfarce. Nasci para o Amor.
Quero alguém que me encha de mimos e de beijos e me apareça a porta com um enorme ramo de flores. Que me brinde pelas manhas com mensagens calorosas e que acabe o dia cheio de vontade de me abraçar. Alguém que conte comigo para tudo. Quero alguém que me queira e que queira este mesmo intenso viver. Fins-de-semana, viagens, planos, carícias, um jantar, uma noite, uma saída... Cada momento. Um amigo.
Quero alguém que me encha de mimos e de beijos e me apareça a porta com um enorme ramo de flores. Que me brinde pelas manhas com mensagens calorosas e que acabe o dia cheio de vontade de me abraçar. Alguém que conte comigo para tudo. Quero alguém que me queira e que queira este mesmo intenso viver. Fins-de-semana, viagens, planos, carícias, um jantar, uma noite, uma saída... Cada momento. Um amigo.
Saturday, October 10, 2009
DIAS SEM NOME
Ontem,
Em silêncio,
Derramei poemas
No mar do teu corpo.
Desertos de palavras.
Florestas de sentimentos.
Com a bênção dos poetas imortais.
Hoje,
Em silêncio,
Esculpo pedras
Bravas.
Fragas que em mim crescem
Em vertigens no ar.
Emergem do verbo Amar
Sem amarras
Às coisas que não querem falar mais.
Não posso querer,
Querer mais,
Que venhas beber tais poemas.
A fantasia a crepitar.
Asas de fogo,
Às quais eu rogo
Que invadam meus desertos
Com florestas tropicais.
Cada gesto
Em ti
Trazia outro jardim.
Talvez perdido.
Mas imenso.
Soprava outro incenso.
Outro poema.
Senti,
Em momentos tais,
Não seres capaz
De seres caminho
Nos meus versos.
Nos versos teus.
Ao teres de te cumprir,
O veleiro dos teus dedos
Embalava outro lugar.
Poema ausente.
Estátua de sal.
Esculpida com medos.
Navegavas perdido mar.
Despida de mim.
Cada gesto,
Em mim,
Trazia um devaneio.
O último.
O último poema.
Imerso de chegada.
Poema onde me semeio,
Sempre emerso de partida.
Mar de vagas
Sem sossego agarram
Castelos para os derrubar.
Nas mãos vazias ficam
Pródigas chagas.
Areia de imagens magras.
Mendigas.
Esfomeada
Do verbo Amar.
No teu olhar
Enchi
O cálice de Luz.
Lua flutuante.
Bebi
Com a esplendorosa calma
A Paz que se procura.
Bebi querendo.
Sem querer beber
Pelo mesmo cálice.
Apenas quis encher o teu.
Diferente e igual ao meu.
Apenas quis pendurar Constelações,
Muitas Estrelas,
Doces canções.
Nebulosas belas
No Céu.
A um Lugar
Feito silêncio,
Daquele donde parti,
Traçado a negro carvão,
Que sem descanso perdura,
Que sem encanto flutua
Cheguei.
Rio Largo da Solidão.
Deixo-me ir.
Como água escorrendo
Por entre dedos.
Por entre vales.
Refaço
Mais negro
O Traço.
À imensidão do espaço
Me entrego,
Me desfaço.
No Céu d’ Aurora
Deixo o meu rastro.
Ana A N Cardoso Simões
Saudade
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás, é
o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
"aquela que nunca amou."
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar
pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...
Pablo Neruda
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...
Saudade é sentir que existe o que não existe mais...
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás, é
o gosto de morte na boca dos que continuam...
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
"aquela que nunca amou."
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar
pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido...
Pablo Neruda
Friday, October 09, 2009
Tuesday, October 06, 2009
Ingratidão
Nem sempre olhamos a vida pelo lado certo.
Lastimamo-nos, arrastamo-nos, não vemos o que de bom Ela nos põem bem em frente ao nosso nariz. Ao invés, deixamo-nos acorrentar pelos sortilégios que fazem parte de qualquer estória, sem nos apercebermos que eles fazem parte de todas elas. Só conta a dor que aperta.
Nunca valorizamos a coisa certa na hora certa.
Quantas vezes não fui valorizada e quantas vezes desprestigiei? Quantas vezes chorei por isso sem olhar em meu redor e apreciar tudo o que de bom tenho? Chorei em vão. A vida muitas vezes é ingrata, mas nós também.
Há males que vêm por bem.
Enquanto derramamos lágrimas ingratas, insanos ignoramos que da razão das lágrimas poderá sobrevir uma outra razão maior. Enquanto perdemos o pouco tempo que temos com essas tristezas, desdenhamos de todas as razões maiores que já são nossas.
A vida faz justiça de formas estranhas.
Hoje sou eu quem chora, amanha serás tu. Por cada pessoa que derrubares a vida encarregar-se-á de te derrubar a ti. Com a mesma indelicadeza, ou com outra diferente.
A justiça tarda, mas chega.
Lastimamo-nos, arrastamo-nos, não vemos o que de bom Ela nos põem bem em frente ao nosso nariz. Ao invés, deixamo-nos acorrentar pelos sortilégios que fazem parte de qualquer estória, sem nos apercebermos que eles fazem parte de todas elas. Só conta a dor que aperta.
Nunca valorizamos a coisa certa na hora certa.
Quantas vezes não fui valorizada e quantas vezes desprestigiei? Quantas vezes chorei por isso sem olhar em meu redor e apreciar tudo o que de bom tenho? Chorei em vão. A vida muitas vezes é ingrata, mas nós também.
Há males que vêm por bem.
Enquanto derramamos lágrimas ingratas, insanos ignoramos que da razão das lágrimas poderá sobrevir uma outra razão maior. Enquanto perdemos o pouco tempo que temos com essas tristezas, desdenhamos de todas as razões maiores que já são nossas.
A vida faz justiça de formas estranhas.
Hoje sou eu quem chora, amanha serás tu. Por cada pessoa que derrubares a vida encarregar-se-á de te derrubar a ti. Com a mesma indelicadeza, ou com outra diferente.
A justiça tarda, mas chega.
Monday, September 28, 2009
Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner
Wednesday, September 23, 2009
Conselho
Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
Fernando Pessoa
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,
Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim como lho vais mostrar.
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.
Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és –
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...
Fernando Pessoa
Tuesday, September 22, 2009
Caminho a teu lado mudo
Caminho a teu lado mudo
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas: Sim... Não ... Não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é...
E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
Fernando Pessoa
Sentes-me, vês-me alheado...
Perguntas: Sim... Não ... Não sei...
Tenho saudades de tudo...
Até, porque está passado,
Do próprio mal que passei.
Sim, hoje é um dia feliz.
Será, não será, por certo
Num princípio não sei que
Há um sentido que me diz
Que isto — o céu longe e nós perto
É só a sombra do que é...
E lembro-me em meia-amargura
Do passado, do distante, E tudo me é solidão...
Que fui nessa morte escura?
Quem sou neste morto instante?
Não perguntes... Tudo é vão.
Fernando Pessoa
Sunday, September 20, 2009
Adeus
Foi hoje.
Chegou o dia em que me enganei sobre a essência de alguém. Devia ter ouvido o meu mau presságio (logo de início!), mas antes ouvi-te a ti a as tuas dissimulações.
Não, pára, não vale mais a pena pedir perdão. Quem pede desculpa é porque reconhece o seu erro, e, assim, não o repete seguida e incessantemente. Basta! Deixa-me desfazer estas ilusões criadas sem sustento, provindas desses teus tentáculos ocultos e obscuros. Deixa-me neste meu mundo criado numa redoma. Essa redoma que me isola de seres como tu. Essa redoma que me protege da vida ingrata.
Porque entraste nela? Porque a partiste?
Pára. Deixa que eu acredite neste meu jardim cuidado e perfumado, sem vermes.
Chega, não quero mais seres encobertos. Deixa o sol raiar! Não te quero mais.
Os meus parabéns por seres o único a conseguires-me sucumbir aos teus disfarces. Mas hoje, hoje não vou martirizar-me mais. Sou o que sou e orgulho-me de me ter construido assim, sem falsidades nem artifícios. Orgulho-me de me poder chamar HUMANA!
Um dia desculpar-te-ei por esse mal que fizeste malograr em mim. Mas hoje, hoje pára de me atormentar. Não quero mais padecer de ti.
Chegou o dia em que me enganei sobre a essência de alguém. Devia ter ouvido o meu mau presságio (logo de início!), mas antes ouvi-te a ti a as tuas dissimulações.
Não, pára, não vale mais a pena pedir perdão. Quem pede desculpa é porque reconhece o seu erro, e, assim, não o repete seguida e incessantemente. Basta! Deixa-me desfazer estas ilusões criadas sem sustento, provindas desses teus tentáculos ocultos e obscuros. Deixa-me neste meu mundo criado numa redoma. Essa redoma que me isola de seres como tu. Essa redoma que me protege da vida ingrata.
Porque entraste nela? Porque a partiste?
Pára. Deixa que eu acredite neste meu jardim cuidado e perfumado, sem vermes.
Chega, não quero mais seres encobertos. Deixa o sol raiar! Não te quero mais.
Os meus parabéns por seres o único a conseguires-me sucumbir aos teus disfarces. Mas hoje, hoje não vou martirizar-me mais. Sou o que sou e orgulho-me de me ter construido assim, sem falsidades nem artifícios. Orgulho-me de me poder chamar HUMANA!
Um dia desculpar-te-ei por esse mal que fizeste malograr em mim. Mas hoje, hoje pára de me atormentar. Não quero mais padecer de ti.
Wednesday, September 16, 2009
Frieza
Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lãminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Florbela Espanca
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lãminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
“Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!…”
Florbela Espanca
Não quero continuar
Não quero continuar.
Vasculho no mais íntimo que consigo, tropeço em ideias, perco-me nestas entranhas.
Não quero continuar.
Levanto-me e tento travar esta escuridão densa. Procuro ouvir-te, ao longe, que tudo um dia correrá bem. Procuro ouvir-te com incessante afinco. Tudo o que vejo é lúgubre como aquele que veio e que foi, sem olhar para trás.
Dias tristes, noites soturnas. Anseio por um rasgo de luz.
Não quero continuar.
Vasculho no mais íntimo que consigo, tropeço em ideias, perco-me nestas entranhas.
Não quero continuar.
Levanto-me e tento travar esta escuridão densa. Procuro ouvir-te, ao longe, que tudo um dia correrá bem. Procuro ouvir-te com incessante afinco. Tudo o que vejo é lúgubre como aquele que veio e que foi, sem olhar para trás.
Dias tristes, noites soturnas. Anseio por um rasgo de luz.
Não quero continuar.
Saturday, September 12, 2009
Solidão
A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.
Vinicius de Moraes
Monday, August 17, 2009
(...)
Enquanto nao ultrapassarmos a dor da nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um.
Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
Monday, May 25, 2009
Carácter
"Cumpre-me agora dizer que espécie de homem sou. Não importa o meu nome, nem quaisquer outros pormenores externos que me digam respeito. É acerca do meu carácter que se impõe dizer algo. Toda a constituição do meu espírito é de hesitação e dúvida. Para mim, nada é nem pode ser positivo; todas as coisas oscilam em torno de mim, e eu com elas, incerto para mim proprio. Tudo para mim é incoerência e mutação. Tudo é mistério e tudo é prenhe de significado. O resultado é horror, mistério, um medo por de mais inteligente.
Pelas minhas tendencias naturais, pelas circunstancias que rodearam o alvor da minha vida, pela influencia dos estudos feitos sob o seu impulso ( estas mesmas tendencias) - por tudo isto o meu carácter é do genero interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente, mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida de autodominio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus ecsritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinarios, inexpulsaveis associações de ideias cujo termo era o infinito.
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for, uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância, mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compôr música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
(...)
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro qua haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."
Fernando Pessoa
Pelas minhas tendencias naturais, pelas circunstancias que rodearam o alvor da minha vida, pela influencia dos estudos feitos sob o seu impulso ( estas mesmas tendencias) - por tudo isto o meu carácter é do genero interior, autocêntrico, mudo, não auto-suficiente, mas perdido em si próprio. Toda a minha vida tem sido de passividade e sonho. Todo o meu carácter consiste no ódio, no horror e na incapacidade que impregna tudo aquilo que sou, física e mentalmente, para actos decisivos, para pensamentos definidos. Jamais tive uma decisão nascida de autodominio, jamais traí externamente uma vontade consciente. Os meus ecsritos, todos eles ficaram por acabar; sempre se interpunham novos pensamentos, extraordinarios, inexpulsaveis associações de ideias cujo termo era o infinito.
Não posso evitar o ódio que os meus pensamentos têm a acabar seja o que for, uma coisa simples suscita dez mil pensamentos, e destes dez mil pensamentos brotam dez mil interassociações, e não tenho força de vontade para os eliminar ou deter, nem para os reunir num só pensamento central em que se percam os pormenores sem importância, mas a eles associados. Perpassam dentro de mim; não são pensamentos meus, mas sim pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não estou inspirado, deliro. Sei pintar mas nunca pintei, sei compôr música, mas nunca compus. Estranhas concepções em três artes, belos voos de imaginação acariciam-me o cérebro; mas deixo-os ali dormitar até que morrem, pois falta-me poder para lhes dar corpo, para os converter em coisas do mundo externo.
(...)
Embora tenha sido leitor voraz e ardente, não me lembro de qualquer livro qua haja lido, em tal grau eram as minhas leituras estados do meu próprio espírito, sonhos meus - mais, provocações de sonhos. A minha própria recordação de acontecimentos, de coisas externas, é vaga, mais do que incoerente. Estremeço ao pensar quão pouco resta no meu espírito do que foi a minha vida passada. Eu, um homem convicto de que hoje é um sonho, sou menos do que uma coisa de hoje."
Fernando Pessoa
Thursday, May 21, 2009
Nesse balanço
Muitas vezes digo-te que não só para te provocar. Finjo-me de desinteressada, de desligada. Aperceber-te-ás que esta falta de paixão por ti é teatro? Eu consigo perceber que sou um desassossego para o teu ânimo, mas sei também que não moverás o que quer que seja, tal e qual como eu não me revelo. Talvez seja isto que dá graça ao balanço da paixão e talvez seja isto que nos torna invulgares aos olhos um do outro. Gostava de conseguir ler-te nessas entrelinhas armadilhadas e temerosas. Decifrar-te como um enigma duvidoso. Não sei que personagem te veste melhor, se o descarado insolente, se o bonitinho inseguro. Julgo-te um misto, talvez me iluda, se te analisar à minha imagem é só falta de coragem. É esta falta de firmeza de atitude que me faz perder-te para quem é arrojado! Mantenho a fé que um dia vou provar-te.
Sunday, April 05, 2009
Monday, February 23, 2009
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